A Matemática do Infarto: Por que olhar apenas o 'Colesterol Total' é um erro estatístico
"Na medicina de dados, não tratamos apenas o nível de colesterol. Tratamos a probabilidade matemática de você ter um evento cardiovascular nos próximos 10 ou 30 anos."
Uma das frases que mais ouço no consultório é: "Doutor, meu colesterol deu um pouco alto, preciso tomar remédio?" ou o oposto, "Meus exames estão todos normais, então não tenho risco, certo?"
A resposta para ambas, baseada nas evidências mais recentes, é: depende da sua equação pessoal.
A Evolução dos Algoritmos: PREVENT vs. PCE
Até pouco tempo, usávamos calculadoras de risco baseadas em dados antigos (PCE - Pooled Cohort Equations). Mas a ciência de dados avançou.
Em 2025, utilizamos ferramentas modernas como a calculadora PREVENT da American Heart Association. Diferente das antigas, ela incorpora fatores que antes eram ignorados, como a função renal e o controle metabólico detalhado.
O que isso muda para você? Estudos mostram que as novas equações são mais precisas, evitando medicar quem não precisa e identificando riscos em quem parecia saudável.
Os "Fatores Intensificadores de Risco" (Risk Enhancers)
Muitas vezes, a calculadora básica diz que seu risco é "baixo" ou "limítrofe". É aqui que entra a minha análise detalhada. O UpToDate lista fatores que funcionam como multiplicadores de risco ocultos. Se você tem algum destes, seu "exame normal" pode estar escondendo o perigo:
1.
Lipoproteína(a) Elevada: Um marcador genético que 20% da população tem, mas quase ninguém mede. Ele acelera a aterosclerose independentemente da sua dieta.
2.
Histórico Familiar Prematuro: Se homens da sua família infartaram antes dos 55 ou mulheres antes dos 65, seu risco basal é estatisticamente maior.
3.
Inflamação Crônica: Medida pela Proteína C-Reativa (PCR-us). Doenças como psoríase, artrite ou lúpus aumentam drasticamente o risco vascular.
4.
Síndrome Metabólica: A combinação de "barriguinha", pressão levemente alta e triglicérides no limite é uma bomba relógio matemática.
O Tira-Teima: Escore de Cálcio (CAC)
Quando a matemática nos deixa em dúvida (o chamado "risco intermediário"), usamos a imagem. O Escore de Cálcio Coronariano é uma tomografia rápida e de baixa radiação que olha para dentro das suas artérias.
Não é estimativa; é visualização direta.
- Escore Zero: Sua probabilidade de evento é baixíssima. Muitas vezes podemos suspender ou evitar a estatina (colesterol), mesmo com o LDL um pouco alto.
- Escore Alto (>100): A doença já está instalada. Precisamos tratar agressivamente, independente de como você se sente.
O Conceito de "Risco Vitalício" (Lifetime Risk)
Se você tem entre 20 e 59 anos, seu risco de infartar nos próximos 10 anos pode ser baixo simplesmente porque você é jovem. Mas isso é uma armadilha estatística.
Na Doxa AI e no meu consultório, calculamos o seu Risco Vitalício (30 anos). A aterosclerose é uma doença cumulativa — como juros compostos. Tratar um fator de risco leve aos 30 anos paga dividendos enormes de saúde aos 60.
Pare de adivinhar e comece a calcular
Vamos fazer seu mapeamento de risco completo, incluindo biomarcadores avançados (Lp(a), ApoB) e análise de dados personalizada.
Fonte: UpToDate 2025, Atherosclerotic cardiovascular disease risk assessment guidelines.
Dr. Victor Hugo Ovani Marchetti
Médico & Cientista de Dados