Risco relativo e risco absoluto: entenda a diferença
Confundir risco relativo e risco absoluto é um dos erros mais comuns na leitura de estudos clínicos, e pode levar a decisões equivocadas sobre tratamentos. Uma redução de "50% do risco" soa impressionante, mas o impacto real depende do risco inicial do paciente. Esta aula mostra como calcular e interpretar cada uma dessas medidas corretamente.
Risco relativo e risco absoluto: o que é risco absoluto
O risco absoluto é a probabilidade simples de um evento ocorrer em um grupo, num período definido. Ele é calculado dividindo o número de eventos pelo número total de pessoas em risco.
Por exemplo, se em um grupo de 1.000 pacientes, 20 tiveram um infarto em 5 anos, o risco absoluto é de 20/1.000, ou seja, 2%. Esse número, sozinho, já tem valor clínico: ele diz quantas pessoas, em termos reais, serão afetadas.
Redução absoluta de risco
Quando se compara dois grupos (por exemplo, tratamento versus placebo), calcula-se a redução absoluta de risco (RAR), que é simplesmente a diferença entre os dois riscos absolutos:
- Risco absoluto no grupo controle: 4%
- Risco absoluto no grupo tratado: 2%
- Redução absoluta de risco: 4% - 2% = 2 pontos percentuais
O que é risco relativo
O risco relativo (RR) compara o risco entre dois grupos, expresso como uma razão. Ele responde à pergunta: "quantas vezes maior ou menor é o risco em um grupo comparado ao outro?"
A fórmula é simples:
- RR = risco no grupo exposto / risco no grupo não exposto
Por que o risco relativo pode enganar
O problema do risco relativo é que ele não informa a magnitude real do benefício. Uma redução relativa de 50% pode representar:
- Uma queda de 4% para 2% (impacto clinicamente relevante em termos absolutos).
- Uma queda de 0,04% para 0,02% (impacto absoluto quase irrelevante na prática).
Como usar risco relativo e risco absoluto na prática
Ao avaliar um estudo ou explicar um tratamento a um paciente, o ideal é sempre apresentar as duas medidas juntas:
- O risco absoluto mostra o impacto real na vida do paciente.
- O risco relativo mostra a magnitude proporcional do efeito, útil para comparar diferentes intervenções.
- O NNT traduz esses números em uma linguagem prática: quantas pessoas precisam ser tratadas para gerar um benefício.
Aplicando ao dia a dia clínico
Ao ler um estudo sobre uma nova medicação, pergunte sempre: qual era o risco absoluto no grupo controle? Sem essa informação, um risco relativo isolado não permite avaliar se o benefício justifica os custos, efeitos colaterais e adesão ao tratamento proposto. Essa é uma das habilidades centrais da leitura crítica em Medicina Baseada em Evidências.
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