Módulo 1 — Risco e Predição Clínica Aula 1.2

Risco relativo e Risco Absoluto (Base)

Risco relativo e risco absoluto: entenda a diferença

Confundir risco relativo e risco absoluto é um dos erros mais comuns na leitura de estudos clínicos, e pode levar a decisões equivocadas sobre tratamentos. Uma redução de "50% do risco" soa impressionante, mas o impacto real depende do risco inicial do paciente. Esta aula mostra como calcular e interpretar cada uma dessas medidas corretamente.

Risco relativo e risco absoluto: o que é risco absoluto

O risco absoluto é a probabilidade simples de um evento ocorrer em um grupo, num período definido. Ele é calculado dividindo o número de eventos pelo número total de pessoas em risco.

Por exemplo, se em um grupo de 1.000 pacientes, 20 tiveram um infarto em 5 anos, o risco absoluto é de 20/1.000, ou seja, 2%. Esse número, sozinho, já tem valor clínico: ele diz quantas pessoas, em termos reais, serão afetadas.

Redução absoluta de risco

Quando se compara dois grupos (por exemplo, tratamento versus placebo), calcula-se a redução absoluta de risco (RAR), que é simplesmente a diferença entre os dois riscos absolutos:

  • Risco absoluto no grupo controle: 4%
  • Risco absoluto no grupo tratado: 2%
  • Redução absoluta de risco: 4% - 2% = 2 pontos percentuais
Esse número também permite calcular o número necessário para tratar (NNT), que indica quantos pacientes precisam ser tratados para evitar um desfecho. No exemplo acima, o NNT seria 1 dividido por 0,02, ou seja, 50 pacientes.

O que é risco relativo

O risco relativo (RR) compara o risco entre dois grupos, expresso como uma razão. Ele responde à pergunta: "quantas vezes maior ou menor é o risco em um grupo comparado ao outro?"

A fórmula é simples:

  • RR = risco no grupo exposto / risco no grupo não exposto
Usando o exemplo anterior: RR = 2% / 4% = 0,5. Isso significa que o tratamento reduziu o risco pela metade, ou seja, uma redução relativa de risco de 50%.

Por que o risco relativo pode enganar

O problema do risco relativo é que ele não informa a magnitude real do benefício. Uma redução relativa de 50% pode representar:

  • Uma queda de 4% para 2% (impacto clinicamente relevante em termos absolutos).
  • Uma queda de 0,04% para 0,02% (impacto absoluto quase irrelevante na prática).
Por isso, divulgar apenas o risco relativo em manchetes ou resumos de estudos, sem informar o risco absoluto, é uma prática que pode induzir a decisões clínicas equivocadas, tanto por superestimar benefícios quanto por gerar ansiedade desproporcional em pacientes.

Como usar risco relativo e risco absoluto na prática

Ao avaliar um estudo ou explicar um tratamento a um paciente, o ideal é sempre apresentar as duas medidas juntas:

  • O risco absoluto mostra o impacto real na vida do paciente.
  • O risco relativo mostra a magnitude proporcional do efeito, útil para comparar diferentes intervenções.
  • O NNT traduz esses números em uma linguagem prática: quantas pessoas precisam ser tratadas para gerar um benefício.

Aplicando ao dia a dia clínico

Ao ler um estudo sobre uma nova medicação, pergunte sempre: qual era o risco absoluto no grupo controle? Sem essa informação, um risco relativo isolado não permite avaliar se o benefício justifica os custos, efeitos colaterais e adesão ao tratamento proposto. Essa é uma das habilidades centrais da leitura crítica em Medicina Baseada em Evidências.

Assista a aula completa acima para ver exemplos práticos e continue para a próxima aula do módulo.